Segunda-feira, 28 de Junho de 2010

Quando um não é o princípio de um sim

Uma das misérias portuguesas é a de sermos tão obsessiva e ostensivamente uma sociedade de aparências. Muitos dos que se destacam neste pobre rectângulo de vaidades e vacuidades – tornando-se ricos ou famosos ou acumulando as duas circunstâncias –, tendem naturalmente a retocar o seu passado e a reescrever a sua história. É uma regra socialmente aceite que se doure a pílula, transformando um pai contínuo num catedrático aposentado ou um humilde T2 na Baixa da Banheira numa casa senhorial nas Beiras. Surpreendemo-nos, pois, quando um empresário milionário e de sucesso conta a sua história real, sem omitir nem acrescentar capítulos, expondo a pobreza da infância e juventude, e falando, com uma simplicidade socialmente incómoda e difícil de preservar, do tempo em que apenas via os ricos na televisão. O que motiva Alfredo Casimiro, o fundador da Urbanos, na entrevista que deu este fim-de-semana ao Público, não é mostrar o que tem nem vangloriar-se pelo que fez. É simplesmente contar, sem artifícios, o exemplo de determinação e vontade de um miúdo casapiano que tirou da vida muito mais do que era suposto esta dar-lhe. O mesmo miúdo que aos dez anos com vinte e cinco tostões na mão (uma fortuna para ele) cobiçou uma bola de Berlim na montra   de uma pastelaria. O empregado pediu 35 tostões – Alfredo retirou as moedas, o empregado guardou o doce. Diz que é talvez por isso que não gosta de bolos. Mas, em vez do ressentimento ou da inveja, guardou apenas o sonho de ser alguém capaz de contrariar as suas circunstâncias e os preconceitos dos outros. Ainda bem que o discretíssimo Alfredo Casimiro aceitou ser primeira página de um jornal, não pelos seus sucessos empresariais, mas pela sua história de vida. Para nos lembrarmos sempre que um não também pode ser o princípio de um sim.

publicado por afacevisivel às 00:06
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3 comentários:
De Tonho Pão de Ló a 28 de Junho de 2010 às 01:25
Este Senhor Alfredo que não comeu a Bola de Berlim porque não tinha o dinheiro todo, se tivesse esperado que o Muro de Berlim caísse, talvez até pudesse ter comprado a Bolinha a crédito.
Assim fez como na minha família.O meu pai dizia sempre quando não havia dinheiro para doces:"e agor vamos lá acompanhar o cafézinho com o nosso nome de família!!!"
E era mesmo bom beber o café sem açúcar mas com o doce do pão de ló.Que vinha do tempo da nossa tia rosa.


De Anónimo a 1 de Julho de 2010 às 14:23
se tivesse esperado pela queda, talvez não estivesse onde está! tambem bebeu o seu cafezinho com acompanhamento de nome de família.... agora bebe o seu cafezinho acompanhado com um grande grupo e com uma grande família!


De Tonho Pão de Ló a 1 de Julho de 2010 às 21:11
Ora aí é que está a virtude de ver antes do tempo para onde cai o muro.
Donde merece beber o seu cafezinho com um grande grupo e uma grande familia.
Vai um conhaque para celebrar?


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